Nota: Para aqueles que acompanham a série pela TV e/ou não gostam de spoilers, esse artigo contem algumas revelações sobre a segunda temporada até o capitulo lançado no dia 10/05
Em apenas duas temporadas – a ultima acabou de chegar ao fim– a série de televisão Glee já causou diversas polemicas, apesar de ser uma série musical e juvenil, passada em ambiente escolar. Polêmicas necessárias, principalmente porque elas mexem com esse mesmo ambiente escolar que, embora já tenha sido tratado com a devida complexidade em filmes – como o vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro do ano passado, Em um mundo melhor, da Suécia – em seriados populares nunca teve o tratamento que Glee lhe está dispensando. Mas o que de tão grave acontece entre os muros da escola, que está sendo investigado e condenado em uma série que já fez especiais sobre Britney Spears e Madonna? A resposta: Bullying, palavra que tem ganhado fama nos últimos anos, que significa, mais ou menos, o ato de incomodar, maltratar, abusar, cometido, geralmente, por um estudante no tratamento de outro estudante mais fraco e com menos recursos para se defender. Pela própria estrutura de Glee, o bullying era um assunto incontornável. Reunindo um grupo de estudantes relativamente excluídos da sociedade “popular” do colégio McKinley High, o grupo de atividades extra-curriculares, New Directions, sob a tutela do professor Will Schuster (Matthew Morrison), deu a esses jovens vozes, e, embora de maneira muitas vezes cômica, uma certa dignidade.
Enquanto a premissa da primeira temporada era mais leve, a segunda começou a tratar da questão do bullying de maneira mais incisiva e critica. Um bullying especifico, o homofobico. Isso se deve ao crescimento do personagem Kurt Hummel, membro do Glee club que é abertamente gay. Nos primeiros episódios ele era um personagem secundário em relação a Rachel, Finn, Quinn e Puck, mas os fãs e os críticos concordam – Chris Colfer, que representa Kurt consta na lista da Time’s magazine de 100 pessoas mais influentes do mundo, e conquistou o globo de ouro por sua atuação – o grande destaque da segunda temporada é Kurt. O personagem é aceito pelos outros membros do New Directions e pelo pai em relação a sua homossexualidade, mas encontra em Dave Karofsky ( Max Adler) preconceito e intolerância. Ele passa a ser atormentado pelo outro estudante, até conhecer a figura de Blaine (Darren Criss), rapaz que canta no Glee club do colégio Dalton, o grupo Warblers. Blaine também é assumidamente homossexual, e procura inspirar coragem e força a Kurt em relação as dificuldades que ele enfrenta no McKinley High. O rapaz começa a enxergar Blaine como modelo de admiração e, eventualmente, se apaixona por ele. Boa parte disso ocorre no episodio Never Been Kissed, ainda no qual, fortalecido pelas palavras de Blaine, Kurt decide enfrentar Karofsky Para a sua surpresa, no meio da discussão, o bully segura seu rosto e o beija intensamente. Isso revela a verdadeira razão para o ódio de Dave, sua enclausurada homossexualidade. Bastante fiel a realidade, Glee mostra a verdadeira face de uma parcela grande dos homofobicos. Após o ocorrido, Karofsky ameaça matar Kurt se ele revelar o que aconteceu para alguém. Hummel sucumbe a pressão e ao medo do outro rapaz e é transferido para o colégio de Blaine. A relação dele com o outro cantor se desenvolve durante a temporada, passando por alguns percalços, até que, finalmente, no episodio Original Song, Blaine percebe-se apaixonado por Kurt e os personagens trocam dois beijos. Tratando de maneira bastante realista dois assuntos que estão em voga ultimamente, ambos igualmente importantes e, muitas vezes, internamente relacionados, a série acerta ao não transformar Karosky em um completo vilão. Na realidade, no antepenúltimo episodio transmitido, Prom Queen, ele pede desculpas emocionadas a Kurt, embora revele, quando tem a oportunidade, que não está pronto ainda para assumir sua verdadeira sexualidade. Fazendo uma critica a sociedade ainda intolerante nesse mesmo episodio, Glee tem seus melhores e mais complexos momentos da segunda temporada nos personagens Kurt, Karosfky e Blaine, alem do relacionamento entre Santana e Britanny, a primeira se assumindo lésbica no episodio Born this way, ambas também provocando discussões entre os intolerantes com seu affair.
Resta agora saber se Glee irá continuar fazendo a alegria dos fãs que torcem por Klaine (Kurt + Blaine) ou, em vista da redenção de Karofsky, irá, talvez, desenvolver uma história entre ele e Kurt. E também, principalmente, se a série vai continuar colaborando, através de seus personagens, na campanha anti-bullying e anti-homofobia.
Alem de recomendar a série Glee, estou deixando o link de um curta metragem de 17 minutos, “Não quero voltar sozinho”, que trata, de maneira bem delicada, do relacionamento entre Gabriel, o aluno novo na escola, e Leo, um estudante cego.

Embora o filme de 2009, estrelando Robert Downey Jr e Jude Law nos papéis principais, tenha causado certo reboliço entre os fãs de Sherlock Holmes e até mesmo atingido a detentora dos direitos autorais da obra de Sir Arthur Conan Doyle, não é a primeira vez que a sexualidade do mais famoso detetive da literatura seja investigada, e que a sugestão de uma homossexualidade seja feita. Em The Private life of Sherlock Holmes, filme de 1970, o protagonista escapa de uma pretendente dizendo que John Watson é seu amante. No longa de Guy Richie, que terá continuação estreando nos cinemas no final desse ano, Holmes e Watson, interpretados por, respectivamente, Robert e Jude, eram mostrados como nos livros: companheiros inseparáveis, apesar das eventuais diferenças de hábitos, fieis um ao outro, amigos estimados e, talvez, dependendo do olhar – algo mais. Em meio a brincadeiras, a frases ambíguas e ao ciúme explicito de Holmes em relação ao noivado de seu caro Watson, a audiência pode captar o implícito bromance – palavra inglesa que sugere uma relação de amor entre dois amigos homens e heterossexuais. Nem sempre, no entanto, essa relação é levada ao campo sexual. Alguns fãs reclamaram, mas outros concordaram imensamente com o ângulo do diretor. No entanto, a audiência geral se divertiu com o filme e as carismáticas atuações dos atores.
Ambas as fomes – de Holmes e slash envolvendo o detetive, podem ser saciadas com a aplaudida série da BBC, Sherlock. Nos três episódios de uma hora e meia cada lançados oficialmente, Sherlock Holmes e John Watson são agora contemporâneos nossos, vivendo na Londres dos nossos dias. As carruagens foram substituídas por taxis, as cartas por mensagens de texto dos celulares. E o bromance – agora numa época aonde a homossexualidade é normal e cada vez mais aceita – é ainda mais sugerido e explicitado do que no filme de Guy Richie. Os roteiristas e produtores conseguiram o feito admirável de transportar os personagens e crimes dos romances do século dezenove para o presente sem forçarem situações e deixarem as peripécias do detetive parecendo artificiais. Em cada episodio um crime é o foco, começando com a adaptação da primeira aventura de Sherlock nos livros, Um estudo em vermelho. A sombra de dois personagens muito especiais segue os dois protagonistas em todos os três episódios – Mycroft, o irmão igualmente genial de Sherlock e Moriarty, seu inimigo mortal. Diálogos inteligentes e roteiros ágeis, no entanto, são apenas parte do sucesso que é essa série inglesa. A grande responsável é a inegável química entre o Holmes de Benedict Cumberbatch e o Watson de Martin Freeman. Em um mundo que o considera praticamente um psicopata – como apontado pela assistente do Inspetor Lestrade – Holmes acha em Watson, um médico que acabou de voltar da guerra do Afeganistão, alguém que procura compreendê-lo e sinceramente o admira.
Seja você fã do detetive ou fã de slash ou mesmo de ambos, a série é uma boa recomendação, seu único defeito sendo a bastante limitada quantidade de episódios. Uma segunda temporada está prevista para ser lançada no próximo semestre, em uma data bem próxima da estréia da segunda parte do filme citado nesse mesmo artigo. Nesse meio tempo de espera, aproveite para ler os livros de Sir Arthur Conan Doyle. Embora, após ver Holmes e Watson de carne e osso no filme e na série, você não consiga mais ver os personagens da mesma maneira. Ou você apenas verá o que sempre esteve lá?





















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